Carlos Daniel: ‘O que se passa, Speciale?’
O texto que se segue foi escrito pelo jornalista Carlos Daniel e publicado no Jornal Record do dia 02/10/2009:
Há algum tempo que me interrogo sobre o que se passa com José Mourinho e o seu Inter de Milão. Um treinador que trabalha como poucos e que ganha como ninguém, não consegue apresentar, ao longo dos últimos meses (e talvez pudesse dizer anos), uma equipa que além de vencer jogos seja capaz de conquistar adeptos. Tempos houve em que perder um jogo do Chelsea (e antes disso do Porto) era como deixar de ver hoje em dia um do Barcelona ou do Arsenal. E ainda por cima era essa a expectativa maior da ida de Mourinho para Itália: vê-lo ganhar de uma forma sedutora como os convencidos resultadistas do futebol italiano nunca viram.
Quem costuma ler o que escrevo sabe que sou admirador incondicional de José Mourinho e que me satisfaço bastante com aquele pequeno prazer de ver a fanfarronice de um patrício que ganha quase sempre na Europa do G8.
Éclaro que os resultados não dão razão aos detratores, mas eu esperava que, ao fim de mais de um ano, Mourinho já tivesse sido capaz de calar os Zeman que lhe chamam medíocre ou os Agroppi que dizem que não levou nada de novo para o calcio. Por muito que Agroppi seja um comentador-treinador duplamente frustrado e ultrapassado e que o checo Zeman nunca tenha aprendido como se diz campeão em italiano.
Averdade é que os meses passam e o Inter não difere muito do de Roberto Mancini: ganha mais vezes que os outros mas raramente encanta. Dou por mim, recorrentemente, a gravar jogos da equipa de Mourinho e a apagá-los depois sem os ter visto.
Na época passada, era evidente que a equipa estava envelhecida (Crespo, Cruz, Dacourt, Figo e até Vieira que lá continua) e tinha falta de criatividade no meio-campo, num plantel que Mourinho quase só herdou. Agora, o plantel está claramente melhor, apesar da perda de Ibrahimovic. No ataque deixou de ter a condução segura do sueco e a alternativa ébria de Adriano para passar a uma dupla de grande fiabilidade com Eto’o e Milito. No meio ganhou a capacidade física de Motta e o talento de Sneijder. Atrás, Lúcio é um super-reforço que caiu como sopa no mel e ao preço da chuva.
Por isso este Inter tem de ser agora menos cínico. Não deixar de ganhar mas mostrar aos italianos que há um outro caminho para as vitórias, que não passa pelo catenaccio nem pelos treinos de ginásio. Até hoje, Mourinho está mais italianizado que o calcio influenciado por Mourinho. Eu esperava o inverso por muito que admitisse ser difícil exigi-lo. No entanto, e neste momento, só se o conseguir é que Mourinho se manterá como o mais brilhante da sua geração, sem ser ofuscado, em particular, pelos triunfos sucessivos e sucessivamente empolgantes de Guardiola.


03. Out, 2009 











Biografia | José Mourinho
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